"São idéias que todos temos quando profanos. O casamento, Alves, é o que foi
entre nós há algum tempo a maçonaria, de que se contavam horrores, e que no fundo não
passava de uma sociedade inocente, que oferecia boa palestra, boas ceias. Há dois prejuízos
muito vulgares: uns supõem que o casamento é a perpetuidade do amor, a troca sem fim de
carícias e protestos; e assustam-se com razão diante da perspectiva de uma ternura de todos
os dias e de todas as horas.
Não os entendo, não! Mas no modo de dizer, na maneira digna por que ele ataca
um adversário, no generoso entusiasmo com que defende uma idéia, na firmeza e
sinceridade de sua palavra, aprendo a conhecer a nobreza de seu caráter; e descubro muitas
vezes uma qualidade que ainda não se me tinha revelado. Olha, Clarinha: é um erro nosso,
muito comum. Admiramos os estranhos pela consideração de que eles gozam na sociedade;
e entretanto uma mulher, em vez de acompanhar o marido em seus trabalhos, em suas
empresas, em suas glórias, quer achá-lo tal qual ela o sonhou, na obscuridade e no repouso
da vida doméstica!" O que é o casamento? - José de Alencar (1861)